segunda-feira, maio 16, 2005


Portugal é feio

Temos a orla marítima, meia dúzia de serras e a claridade de Lisboa. É o Portugal recebido de bandeja. Depois, do Portugal dos portugueses, salvam-se alguns centros históricos. Concedo uma ou outra aldeia isolada nas fraldas. E tudo o resto é feio, muito feio.

Saia-se, por exemplo, de Lisboa para um passeio turístico pelo litoral: Sintra, Mafra, Ericeira, Peniche. À partida, um percurso de excepção. Qual excepção? É a regra: feio, muito feio. Quanto ao périplo pelo IC19, estamos conversados: apenas dormitórios deprimentes, com nomes infelizes como Cacém ou Massamá. Amontoados de caixotes de betão, com periferias de serviços, em que se destacam as ubíquas grandes superfícies. Atracções como o Paraíso do Contraplacado ou o Éden das Canalizações e Louças Sanitárias. De Sintra aproveita-se a parte monumental. O resto pouco se distingue dos vizinhos Algueirões, mais atentado, menos plano director municipal. Em direcção a Mafra, apenas urbanizações manhosas e o tipo de vida industrial que se traduz em barracões pré-fabricados, garagens com veículos abandonados à porta e muitas cercas de arame. Pára-se no Convento - mais uma no cravo da monumentalidade - e, a partir daí, o caminho é sempre a subir, em feiura também, até às horripilantes tendas de recuerdos no Cabo Carvoeiro, autorizadas por algum mafioso invisual. Impressionante como um passeio à beira de uma orla fabulosa pode ser tão, mas tão feio.

Querem tentar um giro pelo sul? A sério? Vamos lá ser objectivos: tirando as praias, o que há depois da(s) ponte(s)? Um ou outro restaurante com bom peixe e estamos conversados. Aliás, a Costa da Caparica chega a ser excruciante de feia. E vamos deixar cair um véu piedoso sobre Almadas, Barreiros e quejandos…

Não há como escapar a esta realidade. Viaje-se pelas aldeias do norte, semeadas de vivendas apalhaçadas em estilo mêzon, antros de estatuária e mosaico a granel; pelas vilas algarvias transformadas em depositários subservientes de salsicheiros alemães ou homens do lixo ingleses; ou pelos subúrbios descarnados das cidades: o Portugal dos portugueses é mal atamancado, pobre, sujo e, sobretudo, feio, muito feio.